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R$ 100 milhões sonegados. Esse é o rombo que os donos da Capsul Brasil causaram aos cofres públicos com um esquema que misturava suplementos falsos e fraude tributária em Minas Gerais.
Os empresários de 29 e 35 anos foram presos na Operação Casa de Farinha, deflagrada na quarta-feira (25/3) em Arcos, no Centro-Oeste mineiro. Eles transformaram a venda de cápsulas sem eficácia numa máquina de lavar dinheiro — e ainda ensinavam outros a fazer o mesmo.
O truque dos e-books que zerava impostos
A fraude era simples e genial. Vendiam suplementos que custavam R$ 100, mas declaravam apenas R$ 10 como produto físico. Os outros R$ 90? “E-book” que acompanhava a compra.
E aqui está o pulo do gato: produtos digitais têm tributação diferente. Enquanto suplementos pagam ICMS cheio, e-books podem ter isenção ou alíquota reduzida. O resultado? Impostos que não chegavam nunca aos cofres públicos.
Segundo as investigações do CIRA-MG, os e-books chegaram a representar 60% a 90% do faturamento declarado — R$ 240 milhões num total de R$ 400 milhões movimentados. Detalhe: os livros digitais raramente eram entregues aos clientes.
Mas isso não era só sonegação.
Suplementos sem princípio ativo e recall da Anvisa
Os produtos vendidos pela Capsul não tinham os compostos anunciados. A Anvisa descobriu em dezembro de 2025 que a fábrica descumpria normas básicas de fabricação, tinha falhas no controle de qualidade e vendia lotes vencidos.
A agência determinou o recolhimento de todos os suplementos fabricados até 5 de novembro de 2025 e suspendeu comercialização, distribuição e fabricação dos produtos. Mesmo assim, o esquema continuou rodando.
O Diário SP identificou que mais de 1 milhão de CPFs compraram produtos da rede — consumidores que gastaram dinheiro em cápsulas que não funcionavam e ainda financiaram a vida de luxo dos empresários.
Ferrari, Porsche e inspiração no Lobo de Wall Street
Enquanto os clientes reclamavam no Reclame Aqui, os donos da Capsul ostentavam 14 veículos de luxo: duas Ferraris, dois Porsches, uma Escalade de mais de R$ 2 milhões.
Relógios? Um Patek Philippe avaliado em mais de R$ 1 milhão. Viagens para Dubai, Grécia e Itália. Jatinho particular. Joias de ouro.
E tem um detalhe que revela tudo sobre a mentalidade da dupla: pendurado na parede do escritório, um quadro do Leonardo DiCaprio no filme “O Lobo de Wall Street” — história de um corretor que enriqueceu com fraudes financeiras.
A ostentação não era só vaidade. Era estratégia de marketing para vender cursos online prometendo “enriquecimento rápido” usando o mesmo modelo fraudulento.
Rede de 300 empresas replicando o golpe
A Capsul criou um verdadeiro “franchise da fraude”. Mais de 300 empresas espalhadas pelo Brasil copiavam o modelo: suplementos subfaturados, e-books superfaturados, impostos sonegados.
Os empresários vendiam cursos ensinando como montar marca própria de suplementos, terceirizar a fabricação e usar o truque dos e-books para pagar menos tributos. O método chegou a 1 milhão de CPFs de consumidores em todo o país.
Um dos investigados chegou ao cúmulo de postar um vídeo na frente de dois carros de luxo com a frase: “Se sua oferta não está lotando o Reclame Aqui, você não está escalando direito”.
Debochavam das reclamações dos próprios clientes.
R$ 1,3 bilhão bloqueado e submetralhadora apreendida
A operação bloqueou R$ 1,3 bilhão em contas bancárias e bens dos suspeitos. Além dos carros e relógios, os agentes apreenderam armas — incluindo uma submetralhadora autorizada pelo registro CAC de um dos empresários.
“Existia um padrão de vida muito alto, demonstrado nas redes sociais, sem o menor pudor”, disse o promotor Pedro Henrique Pereira Correa. “A ostentação era uma forma de atração para vender os cursos.”
O superintendente de Fiscalização da Secretaria da Fazenda de MG, Carlos Renato Machado, alertou que o prejuízo de R$ 100 milhões deve aumentar com o avanço das investigações.
As investigações continuam. E a pergunta que fica é: quantos outros “gurus do empreendedorismo” usam o mesmo truque fiscal para bancar vida de milionário às custas do contribuinte brasileiro?


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Li a matéria e fiquei chocado com o esquema dos e-books. Como é que eles conseguiam enganar tanta gente?! 60% a 90% do faturamento vindo de e-books é muita cara de pau! Agora quero ver se vão devolver o dinheiro de quem gastou com esses produtos falsos.
Inacreditável como pessoas conseguem ser tão desonestas! 100 milhões sonegados e o pior é que tem mais de 1 milhão de pessoas que caíram nessa. Esses empresários de 29 e 35 anos merecem ser punidos de verdade. E ainda por cima, a Anvisa já tinha feito recall! Que falta de respeito com quem comprou esses suplementos!